
Por Rinaldo Mouzalas, advogado, doutor em direito, professor da UFPB
Existe uma afirmação repetida com frequência por profissionais mais experientes: “Na minha época, exercer a advocacia era muito mais difícil”. Sob determinado aspecto, ela está correta. Isso não significa, entretanto, que os advogados antigos fossem necessariamente melhores nem que os mais jovens sejam menos capazes. Cada geração inicia sua trajetória profissional diante de obstáculos diferentes. Durante muito tempo, o principal desafio foi superar a escassez de informações. Hoje, a dificuldade está em lidar com sua abundância.
Os advogados que começaram a trabalhar há algumas décadas precisavam vencer obstáculos que atualmente parecem quase inacreditáveis. A pesquisa jurisprudencial era realizada em bibliotecas, revistas especializadas, repertórios impressos e arquivos dos tribunais. Localizar uma decisão relevante podia consumir dias inteiros, e muitos julgados sequer estavam acessíveis fora das capitais ou dos grandes centros jurídicos. Para conhecer determinada tese, era necessário comprar livros caros, acompanhar periódicos especializados, consultar colegas ou aguardar que uma revista publicasse, meses depois, a decisão procurada.
A advocacia daquele período desenvolveu-se, portanto, em um ambiente de escassez. O profissional precisava saber onde procurar, quais autores consultar e como reconhecer uma fonte confiável. Como a informação não estava disponível de forma imediata, o advogado era obrigado a construir seus próprios caminhos de pesquisa, memorizar institutos, organizar arquivos e manter repertórios pessoais de legislação, doutrina e jurisprudência. A dificuldade de acesso não era desejável, mas acabava exigindo disciplina, paciência, autonomia intelectual e capacidade de investigação.
Hoje, a realidade é profundamente diferente. Um advogado recém-formado pode acessar, em poucos segundos, milhões de decisões judiciais, artigos científicos, livros digitalizados, aulas, pareceres e comentários doutrinários. Os sistemas eletrônicos de pesquisa permitem localizar julgados por assunto, tribunal, relator, data ou expressão específica. O conhecimento jurídico tornou-se mais acessível, mais rápido e, em muitos aspectos, mais democrático.
A inteligência artificial ampliou ainda mais essa transformação. Ferramentas tecnológicas já conseguem resumir processos extensos, organizar documentos, comparar decisões, sugerir linhas argumentativas, revisar textos e preparar minutas em poucos minutos. Um profissional no início da carreira pode ter acesso imediato a recursos que advogados experientes levaram décadas para reunir. Ele começa sua caminhada conhecendo atalhos que não existiam para as gerações anteriores.
Essa facilidade representa uma conquista extraordinária e não deve ser recebida com desconfiança ou nostalgia. A tecnologia reduziu desigualdades de acesso ao conhecimento, permitiu que profissionais distantes dos grandes centros consultassem as mesmas fontes disponíveis aos maiores escritórios e acelerou atividades que antes consumiam enorme quantidade de tempo. Seria um equívoco desprezar essas vantagens apenas porque elas não estavam disponíveis no passado.
O problema surge quando se confunde acesso à informação com formação jurídica. Encontrar uma resposta não significa compreendê-la. Localizar um precedente não significa saber interpretá-lo, identificar seus fundamentos determinantes ou reconhecer as diferenças entre o caso julgado e a situação concreta. Do mesmo modo, produzir uma petição formalmente sofisticada não garante que o advogado compreenda a tese sustentada ou que consiga defendê-la diante de uma pergunta inesperada do juiz.
Nesse aspecto, a advertência de Nassim Nicholas Taleb, em Antifrágil, oferece uma reflexão importante. O autor demonstra que determinados sistemas não apenas resistem às dificuldades, mas se fortalecem quando submetidos a desafios moderados. Aplicada à formação profissional, essa ideia sugere que o enfrentamento de problemas, erros, derrotas e frustrações pode produzir capacidades que nenhum mecanismo de pesquisa consegue entregar prontas.
As dificuldades experimentadas pelas gerações anteriores exigiam que o advogado construísse lentamente seu repertório. A ausência de respostas imediatas obrigava-o a formular hipóteses, confrontar fontes e sustentar conclusões próprias. O profissional precisava comparecer a audiências sem poder consultar instantaneamente toda a legislação, improvisar diante de situações inesperadas e tomar decisões com os recursos disponíveis naquele momento. Essas experiências desenvolviam segurança, memória, criatividade e capacidade de adaptação.
Nada disso autoriza afirmar que a advocacia antiga era superior. As limitações daquele período também produziam exclusão, desperdício de tempo e concentração do conhecimento em poucos profissionais e instituições. Muitos advogados não encontravam uma tese relevante porque simplesmente não tinham acesso aos livros, julgados ou contatos necessários. A escassez podia fortalecer determinadas habilidades, mas também restringia oportunidades.
A nova geração, por sua vez, enfrenta um problema distinto. Em lugar da falta de informação, precisa administrar seu excesso. O advogado contemporâneo encontra milhares de decisões sobre o mesmo tema, opiniões contraditórias, conteúdos superficiais, precedentes desatualizados e respostas produzidas automaticamente. Sua dificuldade não consiste apenas em localizar material, mas em selecionar o que possui qualidade, verificar a autenticidade das fontes e distinguir uma argumentação consistente de uma formulação apenas convincente.
Esse desafio se torna ainda mais relevante diante da inteligência artificial. A ferramenta pode oferecer uma resposta elegante, bem organizada e aparentemente segura, mesmo quando parte de premissas equivocadas ou menciona informações inexistentes. Por isso, quanto mais poderosa se torna a tecnologia, maior deve ser a responsabilidade intelectual do profissional que a utiliza. A rapidez da resposta não elimina o dever de conferir sua correção.
Autores como Daniel Kahneman demonstraram que a mente humana tende a aceitar conclusões fáceis e intuitivas, especialmente quando apresentadas de maneira coerente. Nicholas Carr, ao examinar os efeitos do ambiente digital sobre a atenção, chamou a atenção para o risco de um conhecimento mais fragmentado e superficial. Cal Newport, por sua vez, destacou a importância do trabalho profundo, concentrado e intelectualmente exigente em uma época marcada pela distração permanente. Essas reflexões ajudam a compreender por que o acesso ilimitado à informação não produz automaticamente conhecimento sólido.
Os advogados mais antigos precisavam aprender a encontrar respostas. Os mais jovens precisam aprender a desconfiar delas. Antes, a excelência profissional dependia em grande medida da capacidade de superar a escassez. Agora, depende também da capacidade de filtrar a abundância. São dificuldades diferentes, mas igualmente relevantes.
A inteligência artificial tende a assumir uma parcela crescente das tarefas mecânicas da advocacia. Pesquisar, resumir, organizar documentos, revisar textos e comparar precedentes serão atividades cada vez mais automatizadas. Isso não significa o desaparecimento do advogado, mas a alteração do lugar em que se encontra seu verdadeiro valor.
Quanto mais a máquina se torna capaz de oferecer informações, maior será a importância das competências humanas que não podem ser reduzidas a uma pesquisa automática. Estratégia, criatividade, persuasão, prudência, compreensão do contexto, leitura do comportamento das pessoas, negociação e capacidade de formular perguntas relevantes tendem a se tornar ainda mais valiosas. O advogado não será diferenciado apenas pelo que sabe, mas principalmente pelo que consegue fazer com aquilo que sabe.
O cliente nunca procurou um profissional apenas para ouvir a repetição de artigos de lei ou a reprodução de julgados. Ele procura alguém capaz de compreender seu problema, antecipar riscos, escolher caminhos e tomar decisões responsáveis. A informação é indispensável, mas não substitui o julgamento. A tecnologia pode apresentar alternativas, porém não assume integralmente a responsabilidade pelas consequências da escolha.
A experiência profissional continua sendo construída nas audiências difíceis, nas estratégias que precisaram ser reformuladas, nos recursos perdidos, nas negociações frustradas e nos erros que obrigaram o advogado a pensar de outro modo. Nenhuma ferramenta elimina a necessidade desse aprendizado. Ela pode abreviar pesquisas e ampliar possibilidades, mas não oferece maturidade pronta.
O desafio da nova advocacia não consiste em rejeitar os atalhos tecnológicos, mas em utilizá-los sem perder a capacidade de percorrer o caminho inteiro quando isso for necessário. O advogado contemporâneo deve aproveitar a velocidade, a amplitude e a democratização proporcionadas pela inteligência artificial, preservando, ao mesmo tempo, a disciplina, o pensamento crítico e a autonomia que a escassez exigia das gerações anteriores.
Talvez essa seja a melhor síntese do encontro entre gerações. Os profissionais mais antigos podem transmitir experiência, prudência e resistência. Os mais jovens podem acrescentar velocidade, domínio tecnológico e novas formas de enxergar os problemas. Não há razão para transformar essas diferenças em conflito. Há uma oportunidade de integração.
A advocacia do futuro será mais forte quando reunir as virtudes construídas no passado com as possibilidades abertas no presente. A tecnologia encurta o caminho até a informação, mas continua cabendo ao advogado decidir qual caminho deve ser seguido. Afinal, o acesso ao conhecimento nunca foi o destino da advocacia. Sempre foi apenas o ponto de partida.