
Conheço Marcos Pires desde a década de 1980.
Na verdade, minhas primeiras lembranças dele não vêm dos fóruns, dos livros jurídicos ou das histórias da advocacia. Vêm de um lugar muito melhor: da infância.
Sou amigo de Pedro e Carolina, seus filhos, desde os tempos do colégio O Mundo Infantil. E, por causa deles, Marcos acabou fazendo parte também das minhas memórias daquele período.
Lembro especialmente da casa da Rua José Mariz, em Tambauzinho. Joguei muito voleibol no portão daquela casa.
Marcos sempre foi um grande incentivador dos esportes. E não apenas com os próprios filhos. Ele estimulava a meninada inteira que morava por perto.
De tempos em tempos, inventava verdadeiras olimpíadas em Tambauzinho. Juntava as crianças do bairro, organizava as competições e, ao final, distribuía medalhas.
E é preciso fazer justiça histórica: daquelas Olimpíadas de Tambauzinho saíram grandes campeões.
Estavam no elenco Efraim Filho, para nós, simplesmente Faíto, hoje senador da República; seu irmão, George Morais, hoje deputado; Manoel Jerônimo, o inesquecível Neto Orelha, hoje defensor público em Pernambuco; e Daniel Sebadelhe, vizinho e mascote oficial da turma.
Eu e meu irmão Giordano também participávamos.
No nosso caso, convém registrar com precisão histórica: éramos mais figurantes do que atletas do elenco principal.
Mas recebíamos medalha do mesmo jeito.
Pensando hoje, talvez estivesse ali uma característica que depois eu perceberia tantas outras vezes em Marcos: ele sempre soube que a vida fica melhor quando existe gente por perto participando da brincadeira.
Alguns anos depois, já na década de 1990, voltei a estudar com Pedro e Carolina, dessa vez no PHD.
E Marcos, naturalmente, não se limitava a ser pai de aluno.
Participava das gincanas. Nossa equipe tinha um nome particularmente discreto: TESÃO.
O nome era uma homenagem a uma propaganda da época da qual Marcos havia participado. A campanha reunia grandes profissionais e perguntava a cada um qual era o segredo para ser um grande profissional.
Quando chegou a vez de Marcos Pires, ele resumiu sua filosofia profissional em duas palavras: “Ter tesão.”
E pronto. Virou frase. Virou filosofia. E, algum tempo depois, virou até nome de equipe de gincana.
Em uma dessas competições, havia uma prova de corrida de saco entre os pais. Cada equipe podia escolher um representante.
Nós escolhemos Marcos. Começou a prova. Deram a largada. E Marcos simplesmente saiu em disparada. Pulou como se a reputação profissional, esportiva e familiar dependesse daquele resultado e cruzou a linha de chegada na frente de todos.
Mas ganhar não era suficiente. Enquanto os demais pais ainda tentavam completar a prova, Marcos foi para o chão e começou a fazer flexões.
Não porque a prova exigisse. Mas porque era preciso deixar registrada a diferença de preparo físico entre o vencedor e os demais competidores.
Aquilo também era Marcos Pires. Se é para ganhar, ganhe.
Se puder, depois explique didaticamente por que ganhou.
Aliás, transformar a vida em uma boa história sempre foi uma especialidade dele.
Certa vez, Marcos decidiu ensinar a pescar a mim, ao meu irmão e a Pedro.
Para reduzir um pouco os riscos pedagógicos, levou-nos a um pesque e pague na saída de João Pessoa.
Só havia um problema: ninguém pescou absolutamente nada.
Qualquer outro professor poderia ter reconhecido o fracasso da aula prática.
Marcos Pires, não.
Na volta para casa, passou no Mercado do Peixe de Tambaú, comprou alguns peixes e resolveu o problema.
Não pescamos. Mas voltamos com os peixes. Aprendi naquele dia que entre a realidade e o resultado existe sempre espaço para o pragmatismo.
E pragmatismo nunca faltou a Marcos. Na verdade, Marcos sempre teve uma coleção própria de ensinamentos práticos para a vida.
Um deles ficou definitivamente guardado na minha memória:
“Gorjeta ao garçom você dá quando chega. Não quando paga a conta.”
A explicação era absolutamente lógica. Se você der a gorjeta apenas no final, estará premiando um bom atendimento que já aconteceu.
Se der quando chegar, estará fazendo um investimento no atendimento que ainda vai receber.
Segundo Marcos, somente assim o garçom passaria a atendê-lo com a distinção necessária.
Não sei se essa teoria é ensinada nas melhores escolas de administração.
Mas admito que possui uma coerência econômica difícil de contestar.
Era uma espécie de MBA informal de Marcos Pires: antecipe o incentivo e melhore a performance.
Talvez essas três histórias (a corrida de saco, a pescaria e a gorjeta) expliquem Marcos melhor do que qualquer currículo.
Tenha tesão pelo que faz. Se não conseguir pescar, resolva o problema. E não espere o final para incentivar quem pode ajudá-lo no caminho.
Pode não ser uma teoria acadêmica sobre a vida. Mas funciona.
Histórias também nunca lhe faltaram. Ou, como ele certamente preferiria, causos.
Marcos é uma dessas pessoas a quem você pode perguntar praticamente qualquer coisa e receberá uma resposta imediatamente.
Se a resposta será inteiramente compatível com os fatos, já é outra discussão.
Ele tem histórias, estórias, personagens inacreditáveis e, naturalmente, alguns dos maiores causos jurídicos que já ouvi.
Tantos que resolveu escrever um livro. E conseguiu a proeza de chamar a obra de “Advogando: o Livrinho de Marcos Pires”.
O “livrinho” tem 264 páginas. Muito Marcos Pires. Mas a história do lançamento é ainda melhor.
Marcos convenceu ninguém menos que Humberto Gomes de Barros, então Presidente do Superior Tribunal de Justiça, a lançar um livro no mesmo evento e a apresentar o seu “Livrinho”.
Terminada a solenidade, foram jantar. O problema é que boa parte dos convidados aparentemente entendeu que o jantar também fazia parte do lançamento e foi atrás.
Resultado: Marcos conta que o livro rendeu dinheiro, mas a conta do restaurante conseguiu ser maior.
O Ministro veio à Paraíba, ajudou a vender o livro de Marcos e ainda terminou dividindo o prejuízo do jantar.
É uma história tão improvável que, justamente por isso, parece absolutamente verdadeira quando se trata de Marcos Pires.
E talvez explique por que a internet o apresente de uma maneira perfeita:
“Advogado, contador de causos e criador do Bloco Baratona.”
A Baratona, aliás, talvez seja uma das melhores traduções públicas de quem é Marcos.
Ele pegou a ideia de uma maratona de 42 quilômetros e decidiu adaptá-la.
Em vez de 42 quilômetros, 42 bares.
Criou um bloco sem abadá, sem camiseta obrigatória, sem cordão de isolamento, sem diretoria e sem dinheiro público.
A única exigência sempre foi a alegria.
Até a logística tem o DNA de Marcos: criou o chamado “Cata Bêbo”, uma van destinada a levar para casa quem eventualmente tivesse ultrapassado os limites técnicos da modalidade esportiva.
E, como toda instituição séria precisa de grandes atrações, Marcos chegou a dizer que convidava Zeca Pagodinho todos os anos.
Não para cantar.
Para beber.
Difícil encontrar biografia institucional que concorra com isso.
Mas por trás da irreverência existe uma vida extraordinariamente intensa.
O próprio Marcos escreveu, quando completou 70 anos, um texto chamado “Vivi 140 anos”.
E talvez não tenha exagerado tanto.
Já morou no Rio de Janeiro, comandou boate, fez cinco vezes o Caminho de Santiago, atravessou a Ilha de Páscoa, viveu épocas de enorme prosperidade e também períodos de grandes dificuldades, reconstruiu-se profissionalmente e fez da advocacia uma parte importante de sua história.
Na profissão, orgulha-se de ter participado de grandes batalhas jurídicas de seu tempo, envolvendo os depósitos compulsórios do governo Sarney, as poupanças bloqueadas no governo Collor e os 28% do governo Itamar.
Viveu muito. Experimentou muito. Conheceu muita gente. Frequentou ambientes absolutamente distintos. Do que era mais difícil àquilo que a vida do bacana podia oferecer.
E parece ter conservado em todos eles a mesma característica que eu já enxergava naquele homem que organizava olimpíadas para as crianças de Tambauzinho: a capacidade de tornar a vida um pouco mais divertida para quem está ao redor.
Talvez por isso seja impossível falar de Marcos Pires apenas como advogado.
Advogados existem muitos. Marcos Pires é outra categoria. É advogado, contador de causos, escritor, folião, esportista, organizador de olimpíadas infantis, campeão de corrida de saco, professor de pescaria sem peixe, consultor de gorjetas antecipadas, idealizador de maratona por bares e, sobretudo, um extraordinário colecionador de histórias.
Algumas verdadeiras.
Outras, provavelmente, também.
E há uma coisa especialmente bonita nisso tudo.
Quando penso em Marcos, não penso primeiro nas coisas que ele fez.
Penso nas lembranças que ele deixou nas pessoas enquanto fazia essas coisas.
Eu tenho as minhas.
Pedro e Carolina certamente terão milhares.
Faíto, George, Neto Orelha, Daniel, Giordano e toda aquela turma de Tambauzinho terão outras tantas.
Os amigos, os colegas da advocacia, os companheiros de Baratona e todos aqueles que em algum momento cruzaram seu caminho também terão as suas.
Talvez seja essa uma das melhores medidas de uma vida intensamente vivida: quantas histórias nossas passam a existir porque determinada pessoa existiu perto de nós.
Nesse quesito, Marcos Pires já viveu mesmo muito mais do que 70 anos.
E eu tenho a felicidade de poder dizer que algumas das minhas melhores lembranças da infância e da juventude têm Marcos no elenco.
Uma Olimpíada em que eu era figurante.
Uma gincana em que ele ganhou uma corrida de saco e ainda fez flexões para humilhar esportivamente a concorrência.
Uma aula de pescaria em que ninguém pescou.
E algumas lições que nenhum colégio ensinava.
Tenha tesão pelo que faz.
Dê a gorjeta antes.
E, se não conseguir pescar o peixe, passe no mercado.
Pode parecer brincadeira. Mas talvez exista bastante sabedoria nisso.
Grande Marcos Pires.