

Os ministros Kássio Nunes Marques e Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), declararam que não participarão da votação na sessão que pode definir se Alexandre de Moraes será investigado por mensagens com o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Em sessão que ocorre no plenário da Corte nesta terça-feira (15), Nunes Marques declarou que seu impedimento ocorre por acumular o cargo de presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e pela proximidade com as eleições e consequências que o caso pode ter no pleito deste ano.
Ao justificar por que não participaria do julgamento, o ministro vinculou sua decisão ao papel que exerce na condução do processo eleitoral e à necessidade de preservar a confiança na atuação do TSE. “Entendo que tenho uma missão que me foi conferida pela Constituição brasileira e até agora está sendo assegurada por Deus e que, para mim, sem absolutamente nenhum menoscabo da relevância desse julgamento ou mesmo do caso Master, essa missão é mais importante: assegurar o equilíbrio nas eleições de 2026”, disse.
“O Tribunal Superior Eleitoral tem se mantido, em que pese uma ou outra crítica, absolutamente distante de preferências partidárias, de membros, de assessores, de todos aqueles que atuam no processo eleitoral. Posso até estar errado, mas reputo que o TSE está indo muito bem. Eu não tenho dúvida de que esse julgamento eventualmente pode impactar no cenário político-eleitoral. Então, na condição de presidente do TSE, eu não me sinto confortável para participar desse julgamento e afirmo o meu impedimento”, completou.
Antes de anunciar o impedimento, Nunes Marques rebateu a ideia de que teria sido pressionado ou influenciado por Vorcaro e discorreu sobre o conceito de impedimento e suspeição no Judiciário. “Se eu me sentisse desconfortável ou cooptado de alguma forma, jamais teria votado pela confirmação da prisão. Mas nós sabemos que os impedimentos e as suspeições não decorrem somente de culpabilidade. Todos nós, ministros do Supremo e magistrados de todas as esferas do Poder Judiciário, sempre iremos sofrer algum tipo de influência de pessoas que tentam se aproximar. Isso é uma realidade e nenhum de nós estará livre disso enquanto erguermos as nossas togas. É bom que se registre que, em relação ao caso, eu nunca troquei nenhuma mensagem, não há registro de nenhuma mensagem minha com Vorcaro”.
Outro ministro que também não votará sobre as investigações a Moraes é Dias Toffoli. O magistrado, que era o antigo relator do caso Master no STF e foi substituído por André Mendonça, se declarou suspeito por motivo de foro íntimo e afirmou que sua postura busca preservar a Corte diante das repercussões geradas por um relatório apresentado contra ele.
Toffoli afirmou que pediu que tanto o relatório quanto sua defesa fossem encaminhados a todos os colegas e que, em reunião no gabinete da presidência, a maioria dos ministros entendeu não haver elementos que configurassem sua suspeição. “Todos os eminentes colegas tiveram acesso à íntegra do relatório e da minha defesa, e tive a oportunidade de me manifestar em reunião com todos presentes no gabinete de Vossa Excelência; a grande maioria entendeu pela inexistência de qualquer coisa que levasse à minha suspeição”.
Na visão de Toffoli, a sugestão do ministro Flávio Dino para que ele se afastasse voluntariamente da relatoria buscou proteger a imagem do tribunal diante da repercussão do relatório. “Eu voluntariamente me afastei da relatoria, o que ficou registrado em nota assinada por todos os dez ministros do Supremo Tribunal Federal”.
Para Toffoli, mesmo sem o acolhimento formal de qualquer arguição de suspeição, o início dos julgamentos na Segunda Turma, já sob a relatoria de André Mendonça, exigiu nova manifestação de foro íntimo para evitar constrangimentos à instituição. “Eu me senti na obrigação de preservar a Corte, manifestando a minha suspeição por motivo de foro íntimo, para não constranger e não ter qualquer viés de constrangimento à Corte, acatando a sugestão sábia do ministro Flávio Dino”.
O ministro afirmou que a mesma lógica se aplica agora aos pedidos de investigação envolvendo Moraes e que sua abstenção no julgamento busca dar continuidade à postura adotada na Turma. “Portanto, senhor presidente, mantendo coerência com o que tenho feito na Turma, eu não me sinto, portanto, para a preservação do próprio bom andamento do trabalho”.
Antes da sessão, o ministro Alexandre de Moraes quebrou o silêncio e negou conversas com Vorcaro, classificando as acusações como “diálogos fantasiosos” e apontando que 90,4% das anotações do bloco de notas do banqueiro sequer constavam em chats reais do WhatsApp.
Em petição encaminhada à Presidência do STF, Moraes acusou Mendonça de agir com fins eleitorais e sustentou que o julgamento representa uma tentativa de “vingança” por parte de aliados dos condenados pelo 8 de janeiro. Por sua vez, o ministro André Mendonça prestou esclarecimentos a Fachin sobre a Operação Compliance Zero, afirmando ter ouvido delegados em seu gabinete por cautela após relatórios citarem os nomes do diretor-geral da PF e do PGR em anotações do empresário.
A crise no Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou novos desdobramentos na quinta-feira (10), quando o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, determinou que o relator do Caso Master, ministro André Mendonça, retirasse o sigilo das investigações. Mendonça cumpriu a ordem na mesma noite, liberando o acesso público aos autos do processo.
A abertura das peças trouxe relatórios da Polícia Federal que detalham a frequência de mensagens trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, além de revelar o contrato do escritório de Viviane Barci de Moraes com o Banco Master.
Na sexta-feira (11), a tensão interna escalou quando o ministro Alexandre de Moraes e a Procuradoria-Geral da República (PGR) solicitaram o levantamento total de todos os procedimentos e documentos relacionados ao caso.
Moraes acusou Mendonça de realizar uma “escolha seletiva” na divulgação de inquéritos e de omitir 180 documentos. Em resposta, Fachin deu 24 horas para que Mendonça retirasse todo o sigilo do caso.
Por sua vez, Mendonça reateu as acusações de Moraes e negou ter ocultado documentos, classificando a tabela apresentada como “imprestável” e esclarecendo que as divergências decorriam do funcionamento do sistema eletrônico.
Embora o ministro Gilmar Mendes tenha sugerido adiar a sessão sobre a conduta de Moraes, o presidente Edson Fachin decidiu, no sábado (12), manter o julgamento extraordinário.
Fachin negou o pedido para julgar Mendonça junto de Moraes na próxima semana, pautando o processo contra Mendonça para 23 de setembro. Além disso, Fachin assumiu a relatoria de procedimento que envolve Moraes no caso Master e confirmou que a sessão sobre a conduta de Moraes terá transmissão ao vivo.
Na segunda (14), o STF definiu o rito da sessão sobre as mensagens de Vorcaro a Moraes, estabelecendo o passo a passo regimental da deliberação plenária, que incluirá a leitura do relatório por André Mendonça, manifestações da PGR, sustentações orais, votação individual dos ministros e a proclamação do resultado por Fachin.
Para conter o clima de tensão no Plenário, Fachin avaliou separar fisicamente Mendonça e Moraes na bancada dos ministros, enquanto o esquema de segurança da Praça dos Três Poderes foi reforçado com fechamento de vias e monitoramento por drones.
Entre domingo (13) e segunda-feira (14), a PF enviou os dados do celular de Vorcaro a Zanin, Gilmar e Moraes. As equipes dos três gabinetes organizaram uma força-tarefa no celular de Vorcaro para confrontar Mendonça. O objetivo da varredura foi mapear interações e verificar se haviam ocorrido omissões no relatório inicial apresentado ao plenário.
Na segunda (14), Mendonça atendeu a Fachin e derrubou o sigilo da rede de pagamentos de Vorcaro, após a PGR apoiar o novo pedido de abertura de sigilo. Na mesma data, o Coaf apontou transações do Caso Master com autoridades com foro privilegiado, registrando ter segregado dados de autoridades do STJ e do STF por restrições legais.
O acervo revelou que a PF apontou suspeitas sobre o ministro Dias Toffoli, que um grupo de policiais recebia pagamentos para violar sistemas e que a cúpula da supervisão do Banco Central prestava consultoria a Vorcaro. Além disso, relatórios da Polícia Federal indicaram que aliados de Vorcaro acionaram o PCC para protegê-lo na prisão após sua detenção em novembro de 2025.
No campo político, Flávio Bolsonaro passou a ser investigado no inquérito Dark Horse, após a PF apontar que Flávio teria se encontrado com Vorcaro antes de áudio.
Em reação às revelações, o senador classificou como “mais do mesmo” as apurações da PF sobre o encontro com Vorcaro, sustentando que se trata de busca por patrocínio privado para um longa-metragem e acusando a investigação de criar uma “cortina de fumaça” com viés eleitoral.
Por sua vez, a PF indicou que Eduardo Bolsonaro orientou remessas de R$ 134 milhões a um fundo nos EUA. O presidente Lula, logo após a determinação da queda do sigilo do Caso Master na quinta (10), declarou que se Moraes e Mendonça forem culpados, eles têm de pagar.