
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) minimizou, nesta quinta-feira (27), os temores do mercado financeiro em relação ao endividamento brasileiro. O mandatário resgatou o legado social de suas gestões anteriores e foi categórico ao projetar a consolidação de sua agenda de reconstrução nacional: “Já acabei com a fome duas vezes. Quando voltei [ao cargo de presidente], esse país estava destruído”.
Em entrevista à TV Globo, o presidente disse que o debate sobre as contas públicas precisa ser pautado pela expansão da atividade econômica e não pela paralisia fiscal. Ao analisar o atual patamar de endividamento do país, próximo de 80% do Produto Interno Bruto (PIB), o presidente foi categórico ao minimizar o pânico fiscal: “A mim não preocupa a dívida pública”.
“80% não é um percentual elevado pra um país, olha os EUA. A divida deles é de 120% do PIB, US$ 40 trilhões. O importnte é que uma parte da dívida é da taxa de juros, vocês sempre defenderam um Banco Central independente e eu passei dois anos com o presidente [do BC] do Bolsonaro”.
Para o mandatário, o verdadeiro antídoto contra o endividamento é o crescimento sustentado. Ele destacou que a expansão econômica acima de 2% retornou com a sua volta ao Palácio do Planalto e relembrou o vigor de suas gestões passadas, quando entregou o governo com o PIB crescendo a expressivos 7,5%.
Como prova de seu compromisso, Lula citou os oito anos consecutivos de superávit primário em seus mandatos anteriores e resgatou a estratégia adotada durante a crise financeira internacional de 2008, quando convocou a população, em um discurso de oito minutos, a consumir com responsabilidade, blindando o mercado interno.
Lula também falou sobre as recentes suspeitas e investigações sobre pessoas de seu círculo íntimo, incluindo seu filho (Lulinha), seu chefe de gabinete (conhecido como Marcola) e aliados históricos como o senador Jaques Wagner. Lula adotou um tom de distanciamento institucional rigoroso, ressaltando que, embora preze pela presunção de inocência, não interferirá nas investigações.
Sobre as suspeitas contra seu filho, o presidente desabafou: “Primeiro, não tem nenhuma acusação, são ilações tiradas de telefonemas. Eu fui vítima disso na Lava Jato, a maior mentira montada nesse país para eu não ser presidente. Com meu filho é a mesma coisa. Se ele cometeu o erro, ele vai pagar”, disse o presidente, que completou: “Não haverá da Presidência um milímetro de movimento para proteger”.
Lula aplicou a mesma lógica ao senador Jaques Wagner (PT), suspeito de envolvimento com o Caso Master e ao seu chefe de gabinete Marco Aurélio Ribeiro Santana, o Marcola, que admitiu ter pegado um empréstimo de R$ 249 mil de origem sob suspeita: “É uma pessoa da minha total confiança, mas se cometeu o erro vai pagar. Só não deixo me impactar por ilações”.
“Eu não posso fazer política vivendo de ilações todos os dias. As pessoas são inocentes até que se prove o contrário. Um homem que tem relação comigo por 40 anos… Não posso colocar em dúvida a relação que tem comigo por causa de uma ilação. Eu não sou uma pessoa que muda de calçada quando encontra um amigo investigado”.
A agenda de reconstrução também se estende aos serviços públicos vitais que, segundo o governo, foram deliberadamente desestruturados. Na Previdência Social, Lula anunciou o combate a fraudes e o fim da fila do INSS.
“Quando cheguei tinha 3 milhões de pessoas na fila e vamos entregar a fila terminada da Previdência Social na semana que vem”. O presidente projeta que o tempo de espera, que chegou a atingir 454 dias, será estabilizado em um contingente padrão de 45 dias de espera e 250 mil pessoas na fila.
No que tange aos Correios, estatal que enfrenta crises recorrentes desde 1985, Lula descartou terminantemente a privatização. A estratégia desenhada foca a modernização e na eficiência operacional por meio de parcerias: “Não considero vender, considero recuperar”, afirmou.
Olhando para o futuro, Lula apresentou uma agenda ambiciosa de soberania tecnológica, visando posicionar o Brasil na vanguarda geopolítica e quebrar a dependência das superpotências globais. “Não queremos ficar subordinados à briga de EUA e China”, alertou o presidente.
O plano governamental foca em três pilares estratégicos:
“Precisamos colocar muita gente pra fazer matemática, engenharia e no mundo digital e discutir IA. Não queremos ficar subordinados à briga de EUA e China. Quero que o Brasil seja exportador de inteligência”.
Encerrando as diretrizes de sua gestão, o presidente defendeu uma mudança estrutural no combate ao crime organizado através da proposta de emenda constitucional (PEC) da segurança. O objetivo é redefinir o pacto federativo de segurança e criar, de forma centralizada, o Ministério da Segurança Pública.
Lula destacou a necessidade de investimentos inteligentes e inteligência integrada para recuperar a soberania territorial nas periferias e fronteiras, citando a criação de uma base integrada da Polícia Federal em Manaus. O presidente revelou, inclusive, ter apresentado uma proposta de cooperação por escrito aos Estados Unidos.
“Primeiro tenho que estabelecer qual a participação de cada ente da federação. União, estado e município. Aí vamos trabalhar forte. Meu desejo é recuperar o território do povo. Aquela rua do Rio [onde facções incendiaram ônibus essa semana] é do povo, não do bandido. Estamos preparados para muitas operações”.