
A vida e o trem. O trem e a vida. O homem nasce na estação do ventre, abre os olhos, chora e parte para cumprir sua viagem terráquea. O trem nasce na estação de pedra e cal, apita e sai pelos trilhos do tempo.
O trem leva vidas, desencantos, sonhos, tristezas, alegrias, esperanças e ilusões. Das suas janelas, ao mirarmos o olhar para a sua parte externa, também visualizamos vidas humanas, que, como as serras, açudes, animais, montanhas e rios vão ficando para trás, numa soma de flashes fotográficos capturadores de momentos reais, que logo são arquivados no nosso âmago e transformados em passado, mas que servem de exemplos a nortearem os passos presentes e futuros.
O trem tem suas estações e nelas descem vidas e sobem outras, desce o sorriso festejado pela chegada de quem há tempo se foi, como também sobem no mesmo instante, lágrima da saudade e do sonho de quem parte. O trem segue seu destino, deslizando em trilhos pré-existentes e sabedores das estações a serem visitadas e em qual delas encerrará a sua viagem. É óbvio que pelo caminho poderá haver contratempos, que, se vencidos, viabilizarão o ponto final feliz de um trajeto pré-escolhido.
O trem nos revela o caminho da natureza. Pelos seus trilhos, vislumbramos paisagens encantadoras, como o verde das matas, o olho d’água, as águas que correm faceiras no leito de um rio, um passarinho que desce do seu galho, e, como num balé divino, sobrevoa essas águas, ora mergulhando o seu bico para matar a sede, ora mergulhando para pescar o alimento. O trem também nos revela paisagens desoladoras, ora construídas pela Santa Natura, ora pela ação do próprio homem. Da sua janela, testemunhamos a terra seca, onde o verde dá lugar a um cinzento mundo de galhos, uma imensidão de garranjos ressequidos, de animais e homens, vultos cambaleantes de uma dura sina de retirantes. Num outro momento, nos apresenta os mesmos animais e homens, agora sobreviventes dos lixões, condomínios das misérias, erguidos pela indiferença do próprio homem.
Dessa mesma janela, visualizamos os abismos e os precipícios dos trilhos das serras, vistas indescritíveis, lado a lado, a beleza e o frio do medo em nossa alma.
E a vida? A vida caminha sobre trilhos escolhidos no plano do discernimento, nos trilhos do roteiro traçado por Deus. Tem suas estações, algumas previsíveis, se é que podemos dizer que na vida além da morte há algo de previsível.
A vida tem seus trens, uns de cargas, outros de sofrimentos, de lazer, uns rurais, outros urbanos, uns que passam, outros que ficam, que se transformam em saudade, em dor, em alegria, em liberdade, em luz, enfim, trens que nos levam e que nos devolvem os efeitos dos atos que praticamos no curso da viagem.
Que Deus nos guie pelos trilhos da vida!