terça-feira, 25 de agosto de 2026
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Da Amazônia à Europa, seca avança e movimenta debates
Projeções indicam que, até 2050, três em cada quatro pessoas no mundo poderão ser afetadas pela seca
16 de agosto de 2026 09:54
Redação
Avanço da seca preocupa ambientalistas do mundo todo (Foto: Divulgação/Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

A seca deixou de atingir apenas regiões tradicionalmente áridas e passou a afetar áreas consideradas menos vulneráveis. Segundo a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), a frequência e a duração das secas aumentaram quase 30% desde 2000.

O cenário será um dos principais temas da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia, entre este domingo (17) e 28 de agosto.

Para a secretária executiva da UNCCD, Yasmine Fouad, o momento exige ações antecipadas para evitar que os efeitos das secas se espalhem por comunidades, economias e fronteiras.

“A questão já não é reconhecer a seca como um risco global, mas agir cedo o suficiente para evitar que seus impactos se espalhem pelas comunidades, economias e fronteiras”, afirma Fouad.

As projeções indicam que, até 2050, três em cada quatro pessoas no mundo poderão ser afetadas pela seca. Além disso, a demanda global por água pode superar a oferta em até 40% até 2030.

Todas as regiões do Brasil registraram seca

No Brasil, as cinco regiões registraram algum nível de seca em julho de 2026. Pelo menos 157 municípios foram classificados em situação de seca severa, caracterizada pela redução acentuada da umidade do solo e pelo estresse hídrico da vegetação, com impactos sobre a agricultura.

O fenômeno é acompanhado pelo Monitor de Secas, coordenado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), e pelos boletins mensais do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

O coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, José Antonio Marengo, alerta que o problema pode se intensificar nos próximos meses.

“O que observamos em todo o país é uma tendência de ressecamento. Vemos a diminuição dos totais de chuvas e o aumento da temperatura. Há um risco de que o desequilíbrio entre precipitação e evaporação leve a situações de agravamento das secas”, analisa.

Seca afeta diferentes regiões do mundo

O Observatório Global da Seca apontou que julho foi marcado por temperaturas acima da média e uma onda de calor prolongada em partes da Europa.

As condições de seca também atingem diferentes áreas da África, Oriente Médio e Ásia.

Entre as regiões afetadas estão:

  • Europa: Reino Unido, Itália, França, Alemanha, Hungria e Romênia;
  • África: regiões Sul e Centro, incluindo Sudão, Etiópia, Zâmbia e Madagascar;
  • Oriente Médio: Irã e Omã;
  • Ásia: regiões Central e Sudeste, incluindo Cazaquistão, China e Filipinas.

A seca pode apresentar diferentes características. A seca meteorológica ocorre quando as chuvas ficam abaixo da média durante um período prolongado.

Já a seca agrícola reduz a umidade disponível para as plantas e compromete lavouras e pastagens. A seca hidrológica, por sua vez, afeta rios, reservatórios e aquíferos, prejudicando o abastecimento, a geração de energia, a navegação e a biodiversidade.

Nordeste e Norte de Minas estão entre as áreas mais afetadas

Para Alexandre Pires, diretor do Departamento de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), o fenômeno não pode mais ser tratado como um problema isolado.

“Se pegarmos dados do Cemaden, que faz o monitoramento das secas no Brasil, nos últimos 30 anos, nós tivemos secas severas nas cinco macrorregiões do país”, afirma.

Segundo Pires, Nordeste e Norte de Minas Gerais estão entre as áreas historicamente mais afetadas.

Entre 2012 e 2017, o semiárido enfrentou uma seca de grande impacto sobre as reservas hídricas e a disponibilidade de alimentos para os animais.

O fenômeno também afeta de maneira mais intensa populações que dependem diretamente dos recursos naturais, como indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, pescadores artesanais e agricultores familiares.

Amazônia enfrenta secas históricas

A Amazônia também passou a enfrentar períodos de seca considerados históricos. Em 2023 e 2024, rios de diferentes municípios da região atingiram os menores níveis já registrados.

A redução dos níveis dos rios provocou isolamento de comunidades, interrupção do transporte fluvial e dificuldades para o abastecimento de alimentos e medicamentos.

Segundo a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), secas e queimadas ameaçam os territórios e os modos de vida dos povos tradicionais.

“A crise climática se manifesta no cotidiano das comunidades. Quando o rio seca, o peixe desaparece, o barco não chega e a floresta, antes úmida, passa a queimar”, afirmou o coordenador-geral da Coiab, Toya Manchineri.

Dados recentes do Cemaden mostram que o número de territórios indígenas afetados por seca severa passou de três, em junho, para 17, em julho.

O órgão identificou agravamento da situação em áreas indígenas do Amazonas, Pará, Tocantins e Mato Grosso.

Nos assentamentos rurais, o número de áreas atingidas pela seca extrema passou de duas para 44, enquanto as afetadas por seca severa aumentaram de 102 para 309.

Secas-relâmpago ganham atenção

Além do aumento da frequência e da duração, pesquisadores também acompanham a ocorrência das chamadas secas-relâmpago.

Segundo Humberto Alves Barbosa, coordenador e fundador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), esses episódios começam rapidamente e podem apresentar forte intensidade.

“Essas secas costumam ocorrer durante o verão, acompanhadas de aumento do calor, com início rápido e forte intensidade. O fenômeno dura apenas alguns dias ou semanas”, explica.

O pesquisador alerta que a combinação entre redução da cobertura vegetal e aumento das temperaturas pode agravar a aridez das regiões afetadas.

El Niño aumenta preocupação

As preocupações com a seca também aumentaram diante da previsão de um El Niño mais intenso em 2026.

O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e pode alterar a circulação atmosférica e a distribuição das chuvas em diferentes regiões do planeta.

Segundo as previsões mais recentes da Organização Meteorológica Mundial (OMM), o El Niño deve ganhar força entre agosto e outubro.

No Brasil, o fenômeno pode contribuir para períodos mais secos e temperaturas mais elevadas em algumas regiões.

“Historicamente, um El Niño de intensidade muito forte está associado à redução das chuvas e ao aumento das temperaturas no Norte, Nordeste e áreas do Centro-Oeste. Ele deve afetar tanto a umidade do solo quanto a vazão dos rios”, afirma Humberto Barbosa.

O Programa Mundial de Alimentos (PMA) estima que a seca e outros impactos climáticos relacionados ao El Niño podem agravar a insegurança alimentar em 45 países.

A população em situação de insegurança alimentar aguda pode aumentar de aproximadamente 225 milhões para 275 milhões de pessoas, caso as projeções se confirmem.

COP17 busca ampliar ações contra a seca

A COP17 deve discutir medidas que vão além da resposta emergencial às secas. Entre as estratégias estão monitoramento, sistemas de alerta precoce, recuperação de áreas degradadas, gestão integrada da água e fortalecimento da adaptação das populações.

Alexandre Pires destaca a atuação da Aliança Internacional para a Resiliência à Seca (IDRA), da qual o Brasil passou a fazer parte em 2024.

A expectativa é que a articulação estimule governos a ampliar investimentos e ações preventivas contra os efeitos das secas.

Criada durante a COP27 do Clima, em 2022, a IDRA reúne governos e organizações internacionais para fortalecer a cooperação, compartilhar informações e incentivar investimentos em adaptação.

Resumo da notícia

  • A frequência e a duração das secas aumentaram quase 30% desde 2000, segundo a UNCCD.
  • Todas as cinco regiões brasileiras registraram seca em julho de 2026, com 157 municípios em situação de seca severa.
  • A Amazônia também enfrenta secas históricas, afetando comunidades indígenas e outras populações que dependem dos rios e recursos naturais.
  • A previsão de um El Niño mais intenso entre agosto e outubro aumenta a preocupação com novas secas em partes do Brasil.
  • A COP17 discute medidas de prevenção e adaptação, incluindo monitoramento, alertas antecipados, recuperação ambiental e gestão da água.

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