
O Supremo Tribunal Federal (STF) enfrenta uma grave crise interna após Alexandre de Moraes e André Mendonça apresentarem acusações e pedidos de providências um contra o outro.
O conflito está relacionado às investigações da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master.
Mensagens extraídas do celular do banqueiro indicariam que ele possuía informações sobre investigações sigilosas. O material também revelou conversas entre Vorcaro e Moraes antes da primeira prisão do empresário.
As suspeitas ainda estão em apuração. Não existe, até o momento, uma decisão definitiva sobre a responsabilidade dos ministros citados.
André Mendonça recebeu Daniel Vorcaro em março de 2025, em São Paulo.
Segundo o gabinete do ministro, a reunião tratou de um processo relacionado a créditos de precatórios. O encontro aconteceu antes de Mendonça assumir a relatoria das investigações do Banco Master.
Ainda conforme a assessoria, Mendonça ouviu os argumentos apresentados, mas não assumiu compromissos. O gabinete afirmou que decisões posteriores do ministro foram contrárias aos interesses do banqueiro.
Dois dias antes de ser preso, Vorcaro trocou mensagens com Alexandre de Moraes, segundo relatório da Polícia Federal divulgado posteriormente.
Nas conversas, o banqueiro demonstrou preocupação com uma possível operação e perguntou: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.
Vorcaro também questionou se o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e um juiz identificado como Ricardo sabiam da ação.
O conteúdo foi inicialmente revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmado pela reportagem da Band.
No dia seguinte, Vorcaro voltou a conversar com Moraes e sugeriu um encontro presencial.
De acordo com o relatório, o banqueiro perguntou se deveria comparecer à residência de Moraes ou se o ministro preferia encontrá-lo em outro endereço.
As mensagens são analisadas para esclarecer se houve conhecimento antecipado sobre medidas sigilosas da Polícia Federal.
A Polícia Federal prendeu Daniel Vorcaro no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo.
Segundo a investigação, ele tentava embarcar para o exterior em um jatinho particular. A prisão ocorreu durante a primeira fase da Operação Compliance Zero.
Vorcaro ficou detido por dez dias e foi liberado por determinação do Tribunal Regional Federal da 1ª Região.
Daniel Vorcaro foi preso novamente em 4 de março de 2026, durante a terceira fase da Operação Compliance Zero.
A ordem foi autorizada por André Mendonça. Desde então, o banqueiro permanece preso preventivamente.
A operação apura possíveis crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos. Os investigadores também analisam suspeitas envolvendo títulos de crédito sem cobertura.
Nos meses seguintes, a Polícia Federal analisou o celular apreendido com Vorcaro.
Segundo os relatórios, o empresário teria recebido informações detalhadas sobre investigações sigilosas na 10ª Vara Federal do Distrito Federal e procedimentos conduzidos pelo Banco Central.
A PF também investiga se o grupo mantinha uma rede de influência dentro de instituições públicas para obter vantagens econômicas e antecipar medidas policiais.
Em uma das conversas, Vorcaro mencionou a necessidade de obter “proteção de Andrei e Paulo”.
Os investigadores relacionaram as referências ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. A ligação mencionada permanece sob apuração.
Também existem investigações sobre supostos benefícios concedidos a Moraes. As informações não representam uma conclusão sobre a responsabilidade do ministro.
André Mendonça determinou, em 1º de setembro, o levantamento definitivo do sigilo da Petição 16.662.
O ministro afirmou que o interesse público justificava a divulgação dos documentos e encaminhou o material para manifestação da Procuradoria-Geral da República.
Mendonça também defendeu que os novos elementos fossem discutidos de forma pública e técnica pelo plenário do STF.
Além disso, o ministro anunciou que ouviria um operador financeiro de Vorcaro relacionado a repasses para o grupo denominado “Dark Horse”.
Alexandre de Moraes enviou documentos ao presidente do STF, Edson Fachin, e pediu a investigação de André Mendonça.
Moraes apontou supostos indícios de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade na condução das operações Compliance Zero e Sem Desconto.
As acusações foram apresentadas por Moraes e ainda não foram julgadas.
Segundo a representação, Mendonça teria assumido funções próprias de investigador ao solicitar acesso antecipado ao conteúdo bruto de provas digitais.
Moraes sustenta que a medida teria criado riscos para a cadeia de custódia do material.
A representação também aponta possíveis falhas no armazenamento de dados da Operação Sem Desconto. Parte do conteúdo teria ficado em discos rígidos sob responsabilidade de uma única servidora.
Outra acusação envolve a suposta participação de Mendonça em negociações de colaboração premiada. Moraes afirma que o ministro teria cogitado conceder benefícios não previstos em lei a Maurício Camisotti.
Por fim, a representação aponta um possível direcionamento de diligências contra Moraes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
Conforme as acusações, a atuação contra Alcolumbre estaria relacionada a divergências políticas anteriores. Mendonça ainda terá oportunidade de responder formalmente às imputações.
Ainda na quinta-feira (3), Mendonça procurou Fachin e pediu o afastamento temporário de Alexandre de Moraes.
Segundo informações divulgadas pela Band, o ministro sugeriu que Fachin tomasse a decisão em caráter liminar. Posteriormente, o pedido seria submetido ao plenário do Supremo.
A solicitação de afastamento ocorreu após Moraes apresentar o pedido de investigação.
Na sexta-feira (4), Edson Fachin pediu que a PGR se manifestasse sobre a admissibilidade e a regularidade do procedimento iniciado por Moraes.
O presidente do STF retirou o pedido contra Mendonça do inquérito das fake news e abriu um procedimento próprio para analisar as acusações.
A PGR terá cinco dias úteis para apresentar um parecer. Depois disso, Mendonça contará com mais cinco dias úteis para entregar sua manifestação.
Fachin ressaltou que essas providências servem apenas para instruir o processo e não antecipam qualquer julgamento sobre as acusações.
Em outra manifestação pública, o presidente da Corte afirmou que nenhuma autoridade está acima da lei. Ele também defendeu serenidade e respeito aos procedimentos institucionais.
As providências adotadas por Fachin foram divulgadas oficialmente pelo Supremo Tribunal Federal.
Após as manifestações da PGR e de André Mendonça, Fachin deverá decidir como os pedidos serão analisados.
O presidente do Supremo poderá tomar uma decisão individual ou encaminhar as acusações para apreciação do plenário.
Também permanece pendente uma definição sobre o pedido apresentado por Mendonça para afastar Moraes temporariamente do cargo.