
A Polícia Federal (PF) investiga possíveis ligações entre o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o advogado Willer Tomaz e a casa de apostas online Best Bet. A apuração busca esclarecer se Flávio teve participação indireta no negócio ou atuou como sócio oculto da empresa, suspeita que ele nega.
A investigação começou a partir de um inquérito da Justiça Federal do Rio Grande do Sul, que apurava possíveis irregularidades envolvendo plataformas de pagamento digital e o setor de apostas. Durante as diligências, a PF encontrou e-mails que apontariam Flávio como “usuário master” de uma conta bancária de uma empresa ligada a Tomaz.
O Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a Polícia Federal a investigar suspeitas de lavagem de dinheiro e a possível participação oculta do senador na Best Bet. Até o momento, as informações apresentadas sobre o caso tratam de suspeitas em investigação, e não de irregularidades comprovadas judicialmente.
Willer Tomaz é um advogado conhecido por atuar na defesa de políticos e aparece em diferentes investigações da Polícia Federal. Entre elas está uma apuração sobre desdobramentos do caso dos descontos indevidos em aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Reportagens do Estadão apontaram que a PF apreendeu aeronaves, documentos e registros financeiros relacionados ao advogado e passou a investigar seu patrimônio e suas movimentações. Ele é suspeito de envolvimento em operações financeiras que poderiam incluir recursos provenientes de fraudes.
Segundo reportagem da revista piauí, Tomaz também teria estruturado uma rede de empresas ligada ao setor de apostas. A investigação da PF identificou elementos que indicariam possível vínculo de controle ou propriedade de fato sobre a Rede Loto, empresa associada à casa de apostas Best Bet.
A Best Bet é controlada pela Cathedral Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal, e foi criada em 2023, pouco antes de receber autorização da Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) para operar apostas esportivas.
Segundo a PF, o então presidente da Loterj, Hazenclever Cançado, mantinha uma relação próxima de amizade com Willer Tomaz. A partir de uma interpretação adotada pela autarquia fluminense, a Best Bet passou a operar nacionalmente mesmo tendo uma licença estadual.
A atuação em todo o país foi posteriormente contestada pelo governo federal e limitada por uma decisão do ministro André Mendonça, do STF. Após perder a autorização para operar nacionalmente, a Best Bet teria encerrado as atividades, conforme a revista piauí.
Documentos do Ministério da Fazenda obtidos pela Folha de S.Paulo indicam que Tomaz movimentou cerca de R$ 5 bilhões em apostas esportivas ao longo de 2025, considerando valores ganhos e reapostados. A Fazenda teria considerado as operações atípicas e questionado a ausência de comunicação às autoridades responsáveis pela prevenção à lavagem de dinheiro.
A relação entre o senador e o advogado entrou no radar dos investigadores durante a análise de dados armazenados na nuvem digital de Tomaz. O material teria revelado documentos pessoais de Flávio, fotografias, registros de encontros, viagens e contatos frequentes entre os dois.
Segundo a Folha de S.Paulo, Flávio e Tomaz viajaram juntos para diferentes países em voos compartilhados, contratados por meio da Cathedral Holdings. A investigação também identificou registros de comunicação entre os dois por aplicativos de mensagens criptografadas.
Outro elemento citado em reportagens do O Globo envolve e-mails enviados por uma funcionária de Tomaz ao banco Santander em 22 de maio de 2025, meses antes do fechamento da Best Bet. As mensagens indicariam que Flávio aparecia como “usuário master” de uma conta bancária da Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira e controlada pelo advogado.
De acordo com a reportagem, a condição de usuário master permitiria acesso ampliado à administração da conta, incluindo consulta a saldos, extratos e movimentações financeiras. A PF investiga se esse acesso constitui indício de participação indireta nos negócios ligados às apostas.
A corporação também identificou possíveis conexões patrimoniais. Segundo O Globo, a Alcazar detinha um terço da empresa proprietária de um jato Legacy 650 utilizado por Flávio e Tomaz em viagens internacionais. Em um relatório citado pelo Estadão, a PF afirmou que a proximidade entre os dois merecia “especial atenção” dos investigadores.
A investigação descrita pela revista piauí aponta relações financeiras entre a Alcazar Holdings e a Cathedral Holdings, controladora da Best Bet.
Segundo a publicação, as duas empresas funcionavam formalmente no mesmo endereço, uma sala comercial em Funchal, na Ilha da Madeira. A Alcazar teria sido fundada por Tomaz após a Cathedral Holdings assumir o controle da Best Bet.
Além do endereço, as empresas teriam o mesmo administrador e movimentações financeiras consideradas compatíveis em documentos contábeis analisados pela revista. Um auditor ouvido pela publicação afirmou que os registros sugeririam forte integração financeira entre as estruturas empresariais.
Essas conexões levaram os investigadores a apurar se Flávio poderia ter participação indireta no negócio sem aparecer formalmente no quadro societário. A investigação ainda precisa esclarecer a natureza do acesso atribuído ao senador à conta da Alcazar e sua eventual relação com as atividades da Best Bet.
Flávio Bolsonaro nega ter mantido conta bancária conjunta com Willer Tomaz ou participação societária em empresas ligadas à Best Bet. Segundo o senador, o e-mail do Santander mencionado nas reportagens demonstraria apenas a correção de uma vinculação indevida.
Tomaz também nega irregularidades. Ele afirma que sua relação com Flávio é exclusivamente de amizade, que os dois não compartilharam contas bancárias ou negócios e que as viagens em conjunto foram realizadas por lazer, entre amigos e familiares, sem contrapartida financeira.
O advogado rejeita as suspeitas de participação oculta em empresas ou de envolvimento em esquemas de lavagem de dinheiro. Ele classifica as conclusões atribuídas à PF como ilações com motivação político-eleitoral.
A defesa também sustenta que a Rede Loto nunca operou como plataforma de apostas nos moldes descritos nas investigações e nega a circulação irregular de recursos entre as empresas citadas. Em processo judicial, os advogados de Tomaz alegaram ainda que ele sofreria de ludopatia, condição associada ao vício em jogos.
A investigação busca esclarecer as relações financeiras e empresariais identificadas, assim como verificar se houve participação indireta de Flávio Bolsonaro nos negócios ligados à Best Bet.