
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, defendeu nessa quinta-feira (15) a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes hediondos. Em entrevista à TV Globo, o presidente também defendeu a investigação de denúncias envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e assumiu a responsabilidade pelas dificuldades enfrentadas por seu governo.
A entrevista foi conduzida pela jornalista Renata Lo Prete, nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, e faz parte da cobertura do segundo turno das eleições presidenciais de 2026.
Ao tratar da maioridade penal, Lula afirmou ser favorável à redução para crimes como homicídio qualificado, latrocínio e estupro. No entanto, defendeu que o tema seja discutido separadamente da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública.
“Eu sou favorável a reduzir para 16 [anos], mas não discutindo nessa PEC. Essa PEC não é para discutir isso”, afirmou.
Questionado sobre suspeitas de envolvimento de ministros do STF com Daniel Vorcaro, ex-banqueiro e fundador do Banco Master, Lula defendeu a apuração das denúncias.
O presidente mencionou os ministros Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça e Kássio Nunes Marques ao comentar o caso. As citações ocorreram durante a entrevista, no contexto de suspeitas que, segundo Lula, precisam ser investigadas.
O presidente afirmou ter conversado três vezes com Edson Fachin, presidente do STF, para defender a apuração dos fatos.
“Nem os ministros da Suprema Corte estão isentos de passar para a sociedade a ideia de ética, a ideia de probidade”, declarou.
Lula também defendeu regras de conduta mais rigorosas para integrantes da Corte e afirmou que as denúncias devem ser esclarecidas.
Durante a entrevista, Lula assumiu a responsabilidade pelas dificuldades de sua gestão e pela falta de compreensão de parte da população sobre as ações do governo.
“Se eu não conseguir ser compreendido pela sociedade brasileira sobre o que o governo faz, eu não posso ficar jogando a culpa em ninguém. Eu tenho que jogar a culpa em mim”, afirmou.
O presidente atribuiu parte dos desafios à situação que encontrou ao assumir o governo, em 2023. Segundo ele, os primeiros dois anos foram dedicados à recuperação do país após a gestão de Jair Bolsonaro (PL).
Lula também comentou a relação com o Congresso Nacional e afirmou que conseguiu aprovar medidas importantes mesmo com uma bancada menor no início do mandato.
Sobre as relações comerciais com os Estados Unidos, Lula afirmou que pretende priorizar a negociação com o governo de Donald Trump, mas não descartou medidas de reciprocidade caso não haja acordo sobre as tarifas impostas a produtos brasileiros.
“Não quero fazer. Eu quero continuar negociando. Mas, se for necessário fazer, nós vamos fazer”, disse.
O presidente afirmou que representantes dos dois países continuam negociando e demonstrou expectativa de chegar a um entendimento. Também destacou que o Brasil ampliou relações comerciais com outros países, apesar da queda de 9% no comércio com os Estados Unidos, conforme os dados citados na entrevista.
O presidente voltou a se posicionar contra a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos.
Lula afirmou que os grupos criminosos praticam violência contra brasileiros, mas diferenciou essa atuação do conceito de terrorismo utilizado pelo governo norte-americano.
O presidente também disse ter proposto uma parceria ao governo Trump para combater o crime organizado.
Lula defendeu a aprovação da PEC da Segurança Pública e afirmou que pretende ampliar a participação do governo federal no combate ao crime organizado.
Segundo ele, a proposta busca fortalecer a atuação conjunta entre a União e os estados. Caso a PEC seja aprovada e ele seja reeleito, Lula afirmou que pretende criar o Ministério da Segurança Pública.
O presidente também declarou que planeja transformar 138 presídios em unidades de segurança máxima.
A PEC da Segurança Pública enfrenta divergências no Congresso sobre propostas de redução da maioridade penal. Na quinta-feira (15), o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), retirou a votação da pauta por falta de acordo sobre as emendas relacionadas ao tema.
Na área econômica, Lula afirmou estar preocupado com o crescimento da dívida pública, que, segundo a entrevista, ultrapassou 80% do Produto Interno Bruto (PIB). O presidente defendeu o crescimento econômico como caminho para equilibrar as contas públicas.
“Eu sei que se a gente perder o controle do nosso orçamento, a coisa quebra”, declarou.
Sobre o endividamento da população, Lula citou o programa Desenrola e afirmou que as iniciativas de renegociação ajudam os brasileiros a reorganizar a vida financeira.
O presidente também mencionou uma proposta de leilão de dívidas, com a expectativa de que os bancos ofereçam descontos de até 92% ou 93%. Segundo ele, a União pretende comprar dívidas de pessoas que devem mais de R$ 4 mil.
Lula ainda citou o projeto aprovado pelo Senado que prevê o perdão de dívidas de microempreendedores individuais (MEIs).
Questionado sobre o reajuste do Bolsa Família próximo ao período eleitoral, Lula afirmou que não sabia que o benefício havia passado quase quatro anos sem correção. Segundo ele, ao tomar conhecimento da situação, cobrou explicações dos ministros e decidiu conceder o reajuste.
O presidente também atribuiu o aumento das tarifas de energia elétrica à privatização do setor, incluindo a Eletrobras, durante o governo de Jair Bolsonaro.
Lula afirmou que pretende utilizar a produção de energia limpa para atrair investimentos, inclusive para centros de processamento de dados, conhecidos como data centers.
Sobre as filas de atendimento médico, Lula afirmou que encontrou dificuldades na estrutura da saúde pública ao assumir a Presidência, em 2023.
O presidente citou a contratação de médicos e o avanço do programa Mais Especialistas. Segundo ele, a previsão é colocar 150 carretas em circulação pelo país ainda neste ano para realizar exames, especialmente relacionados à saúde da mulher.
Lula também mencionou parcerias com hospitais privados e Santas Casas para ampliar os atendimentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O presidente foi questionado sobre uma reunião com Daniel Vorcaro no Palácio do Planalto. Lula afirmou que o empresário o procurou, como fazem outras pessoas que enfrentam problemas, e disse que orientou que o caso fosse investigado tecnicamente.
Segundo o presidente, Vorcaro alegou estar sendo perseguido politicamente. Lula afirmou que respondeu que ele seria investigado e não perseguido.
Lula também comentou a participação do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, em uma festa organizada por Vorcaro em Londres. O presidente disse ter repreendido o diretor e afirmou que a explicação apresentada não foi convincente.
Questionado sobre a permanência de Andrei no cargo em um eventual novo mandato, Lula respondeu que só decidirá após as eleições.
Nas considerações finais, Lula comemorou a aprovação no Senado do fim da escala de trabalho 6×1. A mudança prevê duas folgas semanais, em vez de uma, sem redução salarial.
O presidente também mencionou a possibilidade de oferecer transporte gratuito nos fins de semana, considerando o aumento do período de descanso dos trabalhadores.
A entrevista integra a série de conversas da TV Globo com os candidatos à Presidência no segundo turno. Lula foi o primeiro entrevistado, e Flávio Bolsonaro (PL) está previsto para participar nesta sexta-feira (16), também com Renata Lo Prete.