
A história dos patrocinadores no futebol brasileiro também ajuda a contar a transformação da economia do país. Indústria, alimentos, montadoras, eletrônicos, bancos e, mais recentemente, casas de apostas ocuparam espaços de destaque nas camisas conforme o mercado e os hábitos de consumo mudaram.
Agora, esse ciclo chega a um ponto de ruptura. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou nesta sexta-feira (25) uma medida provisória que proíbe a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no Brasil. O veto atinge apostas esportivas e jogos online.
Antes da publicação da MP, quando o governo discutia inicialmente restrições aos cassinos online, clubes se mobilizaram contra a proposta e alertaram para os impactos financeiros sobre o futebol.
A presença das bets é apenas o capítulo mais recente de uma relação que começou oficialmente há mais de quatro décadas.
A publicidade nos uniformes esportivos foi autorizada pelo Conselho Nacional de Desportos (CND) em 1982. O Brasil enfrentava inflação elevada e uma grave crise econômica, enquanto os clubes buscavam novas fontes de receita.
À época, a medida chegou a ser apresentada como uma possibilidade de “salvar financeiramente o futebol brasileiro”, segundo reportagem publicada pelo Estadão em 26 de março daquele ano. As marcas poderiam ocupar espaços de até 250 cm² na frente e nas costas das camisas. Publicidades de cigarros e bebidas alcoólicas estavam proibidas.
A Seleção Brasileira ficou fora desse movimento. Antes mesmo de a autorização virar decreto presidencial, a publicidade no uniforme da equipe nacional foi descartada. O então presidente da CBF, Giulite Coutinho, argumentava que a Seleção representava um sentimento nacional e não deveria funcionar como veículo comercial.
Nos clubes, o cenário era diferente. Empresas brasileiras começaram a ocupar os uniformes, mas o perfil dos patrocinadores mudaria conforme a própria estrutura econômica do país se transformava.
O Brasil construiu, a partir da década de 1930, uma indústria diversificada por meio da política de substituição de importações. O modelo, porém, apresentava limitações em inovação e competitividade internacional.
Com a abertura da economia e o avanço de empresas estrangeiras, companhias brasileiras passaram a enfrentar concorrentes mais preparados para disputar o mercado.
Para Paulo César Morceiro, doutor em Economia pela FEA-USP e pesquisador em Desenvolvimento Regional na Universidade de Utrecht, na Holanda, esse processo ajuda a explicar a entrada de empresas estrangeiras nos patrocínios do futebol entre a segunda metade dos anos 1980 e a década seguinte.
“Está ligado ao nosso processo de desindustrialização. O Brasil cresceu muito com a indústria de São Paulo, depois passou a descentralizar”, explica.
O movimento também coincidiu com a Terceira Revolução Industrial e o avanço da eletrônica, que alteraram a organização da produção mundial.
“Isso permitia plantas [de fábricas] menores. Há deslocamento da indústria para o Leste Asiático”, afirma Morceiro.
O futebol ofereceu um retrato daquele período em 1987. Em meio às dificuldades financeiras da CBF, o Clube dos 13 organizou a Copa União. A Coca-Cola patrocinou os participantes, com exceção de Corinthians, ligado à Kalunga, e Flamengo, que estampava a Lubrax.
A virada para os anos 1990 trouxe reformas liberais e maior abertura econômica.
“É uma forte reconfiguração do mundo, que muda muito em relação a décadas anteriores. Esse é um efeito dominó, observado no Brasil, e coincide com a transição de Sarney para Collor, com discurso modernizante”, explica Heleno Piazentini Vieira, professor do Insper e especialista em História Econômica do Brasil.
Na avaliação de Morceiro, o Plano Real representou um “choque” para uma indústria nacional que ainda não estava preparada para competir. O câmbio e o peso da tributação sobre o setor também entraram nessa equação.
“A carga tributária continua muito alta. Isso não foi resolvido, por exemplo, com redução de tributação em consumo e mais em renda”, avalia.
As camisas passaram a mostrar uma variedade maior de empresas. O exemplo mais conhecido foi a parceria entre Palmeiras e Parmalat, de 1992 a 2000.
A empresa italiana ganhou exposição nacional, enquanto o Palmeiras encerrou um longo período sem grandes conquistas e levantou 11 títulos durante a parceria. Parmalat também investiu em Juventude e Paulista de Jundiaí.
Outras empresas do setor alimentício seguiram caminho semelhante. Batavo patrocinou o Corinthians; Cirio apareceu no São Paulo; Bauducco, no Coritiba; e Mabel, no Goiás.
A indústria automobilística também ganhou espaço no fim da década. Hyundai esteve no Fluminense, Fiat fechou acordos com Atlético-MG e Cruzeiro, enquanto Chevrolet patrocinou Grêmio e Internacional.
Com a inflação controlada e a economia em crescimento, o consumo ganhou força nos anos 2000.
“O Plano Real arrumou a casa e fez partir para outro momento econômico. Muito mais próspero, olhando para outros momentos da nossa história. Mais próspero pelo crescimento mais robusto e que não gera inflação, como nos anos 1970. Mais bem fundamentado”, analisa Vieira.
A privatização do setor de telefonia, iniciada no primeiro governo Fernando Henrique Cardoso, e a popularização dos celulares e televisores ampliaram a presença de empresas estrangeiras de tecnologia e eletrônicos no mercado brasileiro.
Esse movimento chegou rapidamente ao futebol.
Samsung estampou a camisa do Corinthians. LG tornou-se patrocinadora do São Paulo. Semp Toshiba e Panasonic apareceram no Santos.
As marcas que ocupavam os uniformes acompanhavam diretamente aquilo que ganhava espaço no consumo das famílias brasileiras.
A década seguinte começou com baixo desemprego e consumo aquecido, mas as camisas já indicavam uma nova mudança.
Empresas ligadas à construção civil e aos eletrônicos perderam protagonismo. Patrocínios de companhias públicas, como Liquigás no Botafogo e Eletrobras no Vasco, também deixaram de ter continuidade.
O mercado de crédito avançou sobre esse espaço.
A partir de 2011, o Banco BMG chegou a patrocinar 11 equipes simultaneamente, usando o futebol como vitrine para seus produtos, especialmente o crédito consignado.
A Caixa Econômica Federal ampliou ainda mais a presença do setor financeiro e chegou a estampar sua marca nos uniformes de 25 clubes.
Vieira relaciona o movimento ao papel assumido por empresas públicas naquele período e à mudança de orientação econômica nos anos seguintes. Em 2018, o então ministro da Economia, Paulo Guedes, defendeu o encerramento dos patrocínios esportivos da Caixa sob o argumento de que havia outras prioridades para os recursos públicos.
Com a saída do banco estatal, instituições financeiras privadas e digitais passaram a disputar parte desse mercado. Algumas chegaram a criar produtos e aplicativos específicos para torcedores.
Outra transformação já estava em curso. Em 2018, o Brasil legalizou as apostas de quota fixa ligadas a eventos esportivos, criando espaço para um setor que rapidamente se tornaria um dos principais financiadores do futebol.
As casas de apostas avançaram sobre patrocínios máster, competições, naming rights de estádios, placas publicitárias e transmissões.
Em 2025, os patrocínios de bets aos clubes da Série A somaram R$ 1,14 bilhão, o equivalente a 7,9% das receitas das equipes, segundo levantamento baseado nos balanços financeiros. Os 20 clubes faturaram R$ 14,9 bilhões no período e acumulavam R$ 14,3 bilhões em endividamento.
A dependência direta desse dinheiro, porém, variava bastante.
Corinthians (17,3%), Flamengo (12,71%), Sport (12,64%) e Juventude (10,49%) foram os únicos clubes da Série A de 2025 em que os patrocínios de casas de apostas representaram mais de 10% das receitas.
Em 2026, 14 dos 20 participantes da Série A tinham uma bet como patrocinadora máster.
A medida provisória assinada nesta sexta muda novamente esse cenário. Depois de quatro décadas nas quais as camisas acompanharam a ascensão de indústrias, multinacionais, empresas de alimentos, montadoras, eletrônicos e bancos, o futebol brasileiro inicia agora a busca pelo setor que poderá ocupar o espaço deixado pelas casas de apostas.