
A crise político-institucional envolvendo o Judiciário ganhou espaço no período que antecede as eleições de 2026 e deixou em segundo plano o debate sobre propostas de campanha e problemas estruturais do Brasil. Entidades da sociedade civil avaliam que as disputas entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) passaram a dominar o noticiário, as redes sociais e as discussões cotidianas.
A menos de um mês do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, representantes de diferentes setores defendem que as investigações sobre possíveis irregularidades sejam realizadas, mas sem comprometer a discussão sobre os projetos apresentados pelos candidatos aos cargos do Executivo e do Legislativo.
Para a presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro, a crise institucional prejudicou o debate eleitoral.
“O debate eleitoral está prejudicado porque, no primeiro plano, as atenções estão todas voltadas para os reflexos da atual crise institucional do Poder Judiciário”, afirmou.
A presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Garcia, afirmou que a agenda pré-eleitoral acabou concentrada em assuntos que não foram escolhidos pela sociedade como prioridades.
Segundo ela, temas como ciência e desenvolvimento nacional precisam estar entre as discussões eleitorais, especialmente diante da necessidade de regras estáveis, orçamento previsível e investimentos.
“Há uma lacuna imensa em relação a outros temas fundamentais que deveriam estar no centro do debate político-eleitoral, como a ciência, que depende de regras estáveis, orçamento previsível e atenção”, declarou.
Francilene avaliou ainda que a discussão sobre a integridade das instituições e a construção de um projeto de desenvolvimento nacional não deveriam ser tratadas como assuntos separados.
Os representantes ouvidos consideram graves os fatos revelados a partir dos desdobramentos da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal (PF) em novembro de 2025.
As entidades defendem a apuração de possíveis envolvimentos de autoridades com Daniel Vorcaro, dono do antigo Banco Master, mas ressaltam que as investigações não devem impedir a discussão das propostas apresentadas pelos candidatos.
O coordenador honorário da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, classificou as eleições de 2026 como uma das mais importantes desde a Constituição de 1988.
Segundo ele, o cenário internacional passa por mudanças na organização produtiva e por conflitos que exigem uma discussão mais ampla sobre os rumos do país.
“Apesar disso, os grandes temas que deveríamos estar discutindo – desenvolvimento econômico, soberania nacional, uma agenda que articule defesa, educação, ciência e tecnologia – estão escanteados”, afirmou.
Para a presidente do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Rita Serrano, a classe trabalhadora possui uma série de pautas consideradas prioritárias para as eleições.
Entre elas estão o fim da escala 6×1, a geração de emprego e renda, a regulamentação da negociação coletiva no serviço público, a segurança pública e o aproveitamento de minerais críticos e estratégicos.
Rita afirmou que as centrais sindicais vinham pressionando o Congresso pela aprovação de medidas relacionadas às relações de trabalho e à representação sindical no setor público.
Segundo ela, a crise institucional acabou alterando o foco das discussões.
“No momento, todos os Poderes parecem estar surpresos, e a sociedade assustada com o desenrolar desta crise institucional – que é gravíssima e jogou para segundo plano todos os outros temas”, disse.
A crise climática é outro assunto apontado pelas entidades como pouco presente no debate eleitoral.
O secretário executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, citou eventos extremos registrados no Brasil e no exterior, como a seca na Amazônia e as enchentes no Rio Grande do Sul.
Segundo ele, esses fenômenos provocam impactos diretos na população e aumentam os gastos públicos com atendimento às vítimas, reconstrução de cidades e recuperação de atividades econômicas.
Astrini criticou a baixa presença do tema nas campanhas e afirmou que alguns candidatos chegam a negar a existência da crise climática.
“Surpreendentemente, poucos candidatos citam a crise climática entre suas principais preocupações. Pior. Há candidatos que negam o problema”, afirmou.